Estórias. Guimarães Rosa sempre chamou seus textos de estórias. Há, em algum ponto perdido da escola, uma distinção baseada nesse autor de que uma estória é uma criação, um conto, algo que se inventa, enquanto que a história seria a verdade, o ocorrido.
Histórias. Todos têm. Todos gostam de contá-la para que, de alguma forma muito particular a cada um, essa história deixe de ser passado, ocorrido, para que se torne novamente a corrida, o presente.
Mas uma história só é conhecida ao ser contada. Ao ser contada, ela não seria então um outro registro, não seria ela então uma estória propriamente dita? E ao ser contada, não será que haveria nesse inocente ato de tentar apreender a realidade invenção, qualquer que fosse? Afinal de contas, nenhum time jogou tão bem ou tão mal os 90 minutos, nenhum cantor só cantou músicas boas num show, nenhum beijo foi assim tão perfeito, nenhuma viagem foi tão enfadonha. Não há, portanto, em qualquer relato, certa mentira, por mais ínfima ou mais gigantesca que seja? Unindo-se uma estória à história, o mais correto não seria talvez hestórias?
É dessa noção que se pretende construir esse trabalho. Incluído no projeto maior Participantes Sem Grupo (http://participantessemgrupo.wordpress.com/), feito em parceria com os alunos Marcos Singulano e Thiago Teixeira, sob a orientação do professor Hermes Renato Hildebrand para o Projeto Multimídia do curso de Comunicação Social – Habilitação em Midialogia na Unicamp, esse projeto pretende ouvir hestórias. Não é algo novo, obviamente, uma vez que outros projetos como o museu da pessoa (http://www.museudapessoa.net/) já se propuseram a ouvir hestórias. Contudo, é dessa noção de que há mentira em cada relato que se pretende diferenciar esse trabalho.
A cada 15 dias, aproximadamente, será pedido a uma pessoa que ela conte sua hestória em vídeo. Entretanto, a cada vez que for feito esse pedido, será avisado a ela que se ela quiser, não precisa contar os fatos com toda a precisão – na verdade, ela pode contar a sua verdade, parte por parte, mudar pequenas coisas, mudar grandes coisas, ou contar uma mentira absoluta – e nós mesmos, que vamos gravar as entrevistas, nunca saberemos disso.
Essas pessoas, portanto, atuarão, ou não, para a câmera. Por isso, elas podem ser atores, ou não, e isso nunca será revelado. Pelo menos não abertamente. Ao fim de cada hestória contada, começaremos uma rodada de perguntas sobre essa hestória, tentando descobrir se ouvimos algo que ocorreu ou não. E o saldo final, de cada vídeo, será aqui postado.
Talvez a única pessoa que possa saber se foi uma verdade ou uma mentira seja você. Por isso, pedimos que a cada vídeo aqui postado, por favor comente sobre se essa pessoa mentiu ou não. Quem sabe, se você conseguir argumentar muito bem, você mesmo não possa nos enganar?
Gabriel Jubé, Midialogia 2006.